Leo e Lia

 

UM 1 ANO

 

 

                                    UM

                                    Leo encontrou Lia, como de hábito, na portaria do prédio dela. Os pais da menina eles achavam estranho que ela frequentasse a Igreja; mas gostavam. Leo, na cabeça deles, era o coleguinha que a acompanhava aos cultos, nada sério, um beijo ou dois e até o próximo domingo.

                                    Eles não iam. Não tinham interesse pelas coisas de D’us e, além disso, confiavam na filha. Se ela quer frequentar a Igreja que o faça, azar o seu que perde a vida lá fora, a chance de conhecer rapazes de verdade “que possam fazer você feliz, meu amor”.

                                    Leo não tinha futuro. Trabalhava em uma transportadora aqui mesmo em Teresópolis e fingia que estudava em uma escola do governo que fingia que lhe ensinava.

                                    Os pais de Lia, que tinham uma condição econômica melhor do que a de Leo e sua mãe pretendiam que a filha concluísse o segundo grau e fosse estudar no Rio de Janeiro em uma boa faculdade.

                                    O que eles não sabiam é que os jovens não aguentavam mais. Queriam ficar juntos para sempre. Resolveram se casar.

                                    Lia filha única com o coração dos pais na mão sabia que eles concordariam. Tremiam de medo só de pensar nela grávida, “estragando seu futuro, meu amor”.

                                    Para obter o consentimento não precisaria usar dizer “se não me deixarem casar fujo com ele.”

                                    Ela obteria o consentimento se prometesse continuar estudando e não engravidar tão cedo.

                                    A mãe de Leo não levou a sério quando ele entrou em casa dizendo:

                                    – Vou casar com a Lia.

                                    – Quem é?

                                    – Uma menina da Igreja por quem estou apaixonado.

                                    – Aquela riquinha de cabelo preto escorrido que você tem vergonha de trazer aqui em casa?

                                    Só aí Leo se tocou de que não apresentara Lia a mãe.

                                    – Se a senhora frequentasse a Igreja saberia quem ela é.

                                    – Se o seu Pastor não pedisse tanto dinheiro…

                                    A sabedoria imediatamente recomendou silêncio. O Pastor ensinara a Leo a não discutir com as pessoas que não querem ir a Igreja. Cristo nunca obrigou ninguém a segui-lo.

                                    O dinheiro transformado em dízimos e ofertas é algo difícil de entender por quem não consegue enxergar no pedacinho do pão da Santa Ceia o Corpo de Cristo, no suco de uva posto no copinho de plástico o sangue de Jesus e no dinheiro dado no altar o sangue da Igreja.

                                    Melhor não discutir. A mãe de Leo também se calou. Pela primeira vez seu filho de dezenove anos (sim, ele estava atrasado na escola) falava em casar com alguém.

                                    – Recebi um aumento.

                                    – E só por isso pensa que pode se casar? Hoje seu dinheiro parece render porque é só pra você. Mas, casamento aumenta as despesas. Já pensou onde vão morar?

                                    – Aqui; pode ser?

                                    Desta vez a sabedoria socorreu a mãe de Leo e mandou que ela se calasse. O filho quando recebia tirava o dízimo trazia o salário e o entregava na mão da mãe. Ela se comovia e devolvia-o intacto a Leo. Às vezes, para disfarçar a própria emoção e não perder a oportunidade de beliscar a Igreja ela provocava:

                                    – Vê se não vai dar tudo pro Pastor.

                                    Se Leo trouxesse a menina para morar ali, certamente ia querer pagar por tudo. E, se dissesse que não, ele poderia ir embora com ela e deixá-la mais sozinha ainda do que já se sentia, sem homem, sem marido.

                                    A sabedoria tem sempre razão. “Ele é muito responsável, esse meu filho.” Daí porque o próximo pensamento a apavorou:

                                    – Ela está grávida?

                                    Imediatamente, Leo reagiu com orgulho:

                                    – A senhora sabe que não.

                                    – Não sei de nada. O que sei é que você é homem e que os homens não sabem esperar.

                                    – Por isso mesmo vamos nos casar.

                                    A mãe olhou o filho, penalizada:

                                    – Você é tão novinho, Leonardo. Não seria melhor namorar mais um pouco.

                                    – Nós já namoramos bastante.

                                    – Falo em namorar mais, com mais liberdade. Experimentar primeiro.

                                    – Não acredito que a senhora está me dizendo isso.

                                    – Por que não?

                                    – Porque eu mesmo sou fruto de uma experiência que não deu certo, não é mesmo?

                                    – Acha mesmo que uma certidão de casamento ia segurar seu pai?

                                    – Acho que a fé e o temor poderiam ter segurado os dois.

                                    Leo e sua mãe não pagavam aluguel. O apartamento no Meudon, deixado por seu avô materno teve o financiamento quitado quando este morreu. D. Maria, também ela filha única, herdara o imóvel com dois quartos e uma sala em um prédio de muitos apartamentos e problemas de relacionamento entre seus moradores. Desde que Leo arranjara o emprego na transportadora ali perto e passara a frequentar a Igreja conquistara o respeito de todos. Sua mãe nem tanto. Envolvia-se em fofocas, brigas e reclamações.  Tudo era motivo para iniciar uma discussão.

                                    Como é que essa dona barraqueira pode ser mãe de um rapaz tão educado, indagavam alguns e, algumas, como se verá, sobretudo uma; certa vizinha mais velha do que Leo e que não via nisso nada demais.

                                    Dentro de casa, no entanto, D. Maria era muito cordata e procurava não contrariar o filho. Embora o provocasse em relação à Igreja, parecia temer confrontá-lo. Talvez temesse perdê-lo como perdeu o marido, que disse que ia ao Rio de Janeiro arrumar um emprego e voltaria e nunca mais voltou.

                                    No fundo no fundo estava feliz, pois seu querido Leonardo não falara em sair de casa e casar; falara em casar em ficar em casa, ali mesmo com a mulher e quem sabe o neto.

                                     Prefiro que seja menino, ela pensou. É sempre bom ter um homem dentro de casa.

Ter dois, nem se fala.

Enquanto isso os outros dois, Leo e Lia, marcaram um encontro na calçada defronte à Igreja para juntos conversarem com o Pastor.

Haviam resolvido como membros fervorosos da Congregação que não se casariam sem a benção do homem de D’us.

Por isso estavam nervosos; temiam não obtê-la.

Fiquem tranquilos, caso vocês.

Casa? Perguntaram incrédulos.

Caso. Posso até prometer casá-los pessoalmente. Por que não?

Eles se entreolharam duvidando da própria felicidade.

Só tem uma condição, começou a explicar-lhes o Pastor.

Uma condição?

Sabia que era pegadinha.

Não é pegadinha; é uma simples condição.

Diga logo, Pastor, pediu Lia aflita.

Vocês vão esperar um ano.

Eles concordaram com cabeça, forçando o gesto, concordando com nítida relutância revelada por rostos que diziam não, que desafiavam a sinceridade do movimento com o qual diziam sim.

Sem se ver.

Sem se ver?! A insincera concordância passou rapidamente para sincera discordância:

Não podemos.

Leo não aguenta, Pastor.

Assim não é possível.

A Bíblia não manda casar?

Se ele não aguentar é porque não serve para você, minha filha.

O senhor não entende: ele não pode ficar solto por aí.

E você, Lia, perguntou-lhe o sacerdote: você pode?

Já orei ao Senhor e tenho certeza de que ele é o varão preparado para mim.

Então você pode esperar tranquila, concluiu o Pastor.

Lia não tinha coragem de dizer ao Pastor que não podia esperar. Nem precisava. Seus olhos desesperados diziam tudo. O homem de D’us parecia não se importar:

Um ano passa num piscar de olhos, ele disse. Vocês terão uma vida inteira para ficarem juntos.

Mas por que esperar um ano?

O Pastor limitou-se a perguntar:

Por que não?

Isso não é bíblico, ponderou Leo.

Tem razão. Tornei a coisa um pouco mais fácil: bíblico é esperar quatorze anos, não é mesmo?

Lia lembrou-se da espera de Jacó e começou a chorar. Ela sempre se emocionava quando refletia no registro bíblico do amor à primeira vista de Jacó por Raquel; “Love at first sight” como gostava de falar, exercitando o inglês de seu curso em cujo livro desenhara, é claro, um coração com o nome de Leo quando aprendeu o significado da expressão.

E o que vamos fazer durante esse ano? Perguntaram de um jeito tão igual que parecia ensaiado.

Buscar o Espírito Santo, sentenciou o Pastor.

Um ano inteiro? Murmurou Leo.

É, Leonardo. Um ano inteiro. Deve ser muito para quem fica de olho aberto consultando o relógio na hora da busca.

Eu não faço isso.

Faz sim, disse Lia baixinho, cutucando-lhe com o cotovelo.

Então é por isso?!

Por isso o que?

Que o senhor não quer nos casar?

Se você acha isso…

Não sei o que achar.

O senhor promete que nos casa daqui a um ano?

Já disse que prometo.

Então vamos esperar.

Lia, você está maluca?!

Leo, meu amor, eu te amo muito; mas, não casarei sem a benção do Pastor.

– Ele não é o único que pode nos abençoar.

– Mas pode nos abençoar.

– Então case com outro.

Lia ficou ali chorando enquanto Leo se afastava. Nisso chegou até ela a esposa do Pastor e procurou consolá-la.

Leo não andou cem metros antes que começasse a chorar.

Mesmo assim, não voltou atrás. A raiva o ajudava a caminhar, enquanto esfregava com o braço as lágrimas de um amor que sabia que era de verdade.

Também sabia que Lia o procuraria e ele a convenceria não esperar. Afinal, quando eles se beijavam ela parecia mais ansiosa do que ele.

Amavam-se. Definitivamente, amavam-se.

Aliás, estava disposto a não esperar mais coisa alguma. Quando Lia aparecesse, ele pediria a ela uma prova de amor, aquela prova de amor.

Finalmente conseguiu secar as lágrimas, que julgou apenas de raiva e foi pra casa. A pé. Quem conhece Teresópolis sabe a grande distância que há entre a Várzea e o Meudon. Subiu a Tenente Luís Meirelles inicialmente preocupado se as pessoas estavam vendo-o chorar. Depois não pensou mais nelas. Enquanto caminhava, acalmava-se. Tudo o que precisava fazer era esperar.

Esperar! Que ódio eu sinto por essa palavra, pensou. O Pai fez o mundo em sete dias. Eu não esperaria tanto, julgou.

Aí concluiu ao óbvio. Que o mundo é grande e não dá mesmo pra ser feito em sete dias. Em uma semana não dá pra fazer muita coisa, nem mesmo um pedacinho de Teresópolis. Que dirá as condições para um casal viver bem a vida inteira.

A Bíblia diz que o homem foi feito no sexto dia e a essa Lia de Teresópolis há apenas dezesseis anos atrás.

Fez ela para ele, o homem Leo, sem dúvida. Ele tinha tanta certeza disso! Ela, magoada com a estupidez do namorado, preferira não ter tanta certeza assim.

Por que será que o Pastor resolveu desafiar essa certeza?

 

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